A princípio, para a criança, o desenho não é um traçado executado para fazer uma imagem mas um traçado executado simplesmente para fazer linhas.
(Luquet, 1969)
(Luquet, 1969)
O desenho é a linguagem que antecede a escrita sendo considerado uma das antigas formas de comunicação do ser humano. Por ser o primeiro registo concreto da expressão pessoal, é portanto uma fonte de informação e compreensão da personalidade, sendo que não constitui uma representação fiel da realidade, mas sim uma interpretação da realidade.
As experiências gráficas fazem parte do crescimento psicológico e são essenciais para a formação de indivíduos sensíveis, criativos e capazes de transcender e transformar a realidade.
A criança desde pequena começa a preocupar-se com os sentimentos propostos pela sociedade. Como resultado dá ênfase ao self (eu): os conflitos, os desejos, as preocupações, alegrias, inquietudes e as realidades individuais, são exprimidos através das diferentes formas de comunicação. É também desde cedo que começa a dominar a técnica do desenho e é através deste que exprime os seus sentimentos.
Muitas vezes o que acontece é que os pares ou a própria família acabam por desencorajar a criança a utilizar a criatividade como fonte de expressão. Consequentemente, em vez de desenvolverem este domínio a par dos outros, passam para segundo plano as suas actividades artísticas.
A criança não nasce a saber desenhar, mas constrói o seu conhecimento acerca do desenho através da sua actividade com este objecto de conhecimento. Nesse sentido, a criança não desenha o que vê nos objectos, mas o que as suas estruturas intelectuais lhe possibilitam que veja, ou seja, em vez de representar o mundo directamente, interpreta-o e começa a perceber que o desenho serve para imprimir o que vê. Os desenhos realizados pelas crianças da faixa etária entre um e três anos são conhecidos como GARATUJAS. As garatujas enfatizam a importância da primeira infância e da arte no desenvolvimento da criança e expressam o prazer de traçar linhas em todos os sentidos, como se a mão estivesse a rabiscar.
Para a evolução do grafismo, surgem várias linhas teóricas que estudam a expressão gráfica humana, desde a infância até à adolescência.
Referimos mais aprofundadamente, os níveis de Luquet e de Piaget, visto que muitos autores ao abordarem o desenho do ponto de vista das construções do sujeito referem-se às suas teorias.
Luquet (1969) foca a criança como sujeito de acção, bem como as intenções e as interpretações que esta atribui às suas criações definindo estágios de desenvolvimento gráfico: realismo fortuito, incapacidade sintética, realismo intelectual e realismo visual.
O estágio do realismo fortuito começa por volta dos dois anos onde desaparece a forma do rabisco e surgem signos, intencionalmente, onde a criança constata uma certa analogia entre alguns dos seus traçados e objectos reais dando-lhe uma interpretação. É a fase das famosas garatujas e de acordo com as definições de Piaget, o período sensório-motor.
No estágio da incapacidade sintética, a criança representa cada um dos objectos de maneira diferente, não desenhando e integrando coerentemente os diversos pormenores que visualiza. Uma vez que considera somente o seu ponto de vista, atribui aos detalhes a importância que têm naquele momento, exagerando ou omitindo partes. Já consegue representar graficamente o espaço construindo relações topológicas entre as formas. A cor tem um papel decorativo, puramente acidental e aleatório.
No realismo intelectual, existe um interesse por parte da criança em representar não só o que vê, mas tudo o que “ali existe”, dando a cada objecto a sua forma exemplar. Utiliza vários processos como: a descontinuidade, (desenha a linha do chão, mas não apoia os objectos sobre a mesma); a transparência (refere-se às partes ocultas de um objecto); a planificação (representa as diferentes faces do objecto) e o rebatimento (considerando-se o centro, procura representar os dois lados de um objecto). Nesta fase, para melhor evidenciar a forma exemplar dos objectos, a criança mistura diferentes pontos de vista e representa-os conjuntamente no mesmo desenho. A cor tem um papel realista e relaciona-se ao conhecimento que a criança tem dos objectos.
Por fim, no estágio do realismo visual, são abandonadas as estratégias utilizadas anteriormente. A transparência dá lugar à opacidade. Os rebatimentos coordenam-se dando origem à perspectiva e os objectos passam a ser representados de acordo com essa nova construção. Os detalhes têm como objectivo individualizar as formas anteriormente genéricas. Para representar o espaço, desenvolvem-se e relacionam-se os sistemas de construção das relações projectivas e euclidianas. A cor é aqui utilizada através de matrizes e tons para particularizar os objectos e portanto adquire um papel ora realista ora decorativo.
Piaget (1976), considera os desenhos das crianças como produtos da sua percepção do mundo, afirmando que desenham a partir do que conhecem de si e do que as rodeia. Com base nas teorias cognitivistas, Piaget considera que durante o crescimento, a criança desenvolve conceitos que na verdade são as bases para representações gráficas.
Ao estudar o desenvolvimento espontâneo da criança, baseia-se nos estágios propostos por Luquet, interpretando-os na perspectiva da representação do espaço, a partir do nível do realismo fortuito, e define os seguintes estágios:
A Garatuja que faz parte da fase sensório motora (0 a 2 anos) e da fase pré-operacional (2 a 7 anos). A Garatuja pode ser desordenada, onde os rabiscos obedecem a movimentos amplos e aleatórios que não respeitam o limite da folha, ou ordenada onde os rabiscos seguem o limite do papel.
O Pré- Esquematismo, na fase pré-operatória, a criança inicia-se na descoberta da relação entre o desenho, pensamento e realidade. Surge a construção da perspectiva com projecções e relações e ainda proporções e distâncias.
O Esquematismo, que pertence à fase das operações concretas (7 a 10 anos). Aparecem os esquemas representativos e a afirmação de si mediante repetição flexível do esquema, onde novas experiências são expressas pelo desvio desse mesmo esquema.
O Realismo que se situa no final da fase das operações concretas. Designa-se por existir uma consciência maior do género e da autocrítica pronunciada. No espaço é descoberto o plano e a sobreposição.
O Pseudo Naturalismo, já na fase das operações abstractas (10 anos em diante). A arte deixa de ser uma actividade espontânea e inicia-se a inquirição da própria personalidade e começam a estar presentes aspectos como o exercício, o símbolo e a regra.
Segundo Luquet e Piaget, na passagem de um nível para outro, há um acréscimo de novos conhecimentos adquiridos num nível anterior, assim como a reestruturação desses conhecimentos no novo nível.
Ainda para outros autores (Lowenfeld e Brittain, 1970), medida que a criança cresce, desenvolve o espírito crítico em relação ao que desenha. Esta consciência crítica pode anular o desejo de expressão crítica da criança, principalmente quando existe uma passagem rápida da infância para a adolescência. Por não conseguir ajustar-se com suficiente brevidade à sua nova consciência crítica, também não consegue obter satisfação com as suas criações.
Nesta fase, quando não bem orientada, a criança perde interesse pela arte e suspende totalmente as suas actividades artísticas, pois devido à sua repentina “tomada de consciência, passa também a perceber a pobreza dos seus meios infantis de expressão.
Por volta dos 12 anos de idade, “a já não criança” ingressa então noutra fase, a pseudonaturalista, conhecida também por puberdade ou pré-adolescência. Inicia-se o período da razão e da crítica e portanto da atenção para o produto final. Dificuldade de contacto com as transformações corporais e psicológicas e por isso dificuldade em desenhar a si mesmo. A percepção da tridimensionalidade, profundidade e perspectiva atinge uma certa maturidade.
Segue-se o chamado estágio da decisão – crise da adolescência (14 aos 17 anos). Surge a consciência crítica do meio e do resultado representativo visando uma identificação mais clara do tipo visual, onde se formulam impressões do meio no qual o criador se sente espectador. Interpreta visualmente luz e sombra, dá ênfase à proporção exterior e à perspectiva espacial, a cor ganha aqui qualidade em relação ao ambiente. O criador sente-se agora envolvido por experiências subjectivas e expressões emocionais (tipo haptic ou não visual), onde a exibição de carácter e sentimentos surgem por vezes através de representações simbólicas. A cor surge expressiva com significado psicológico e emocional.
Referências Bibliográficas:
Nesta fase, quando não bem orientada, a criança perde interesse pela arte e suspende totalmente as suas actividades artísticas, pois devido à sua repentina “tomada de consciência, passa também a perceber a pobreza dos seus meios infantis de expressão.
Por volta dos 12 anos de idade, “a já não criança” ingressa então noutra fase, a pseudonaturalista, conhecida também por puberdade ou pré-adolescência. Inicia-se o período da razão e da crítica e portanto da atenção para o produto final. Dificuldade de contacto com as transformações corporais e psicológicas e por isso dificuldade em desenhar a si mesmo. A percepção da tridimensionalidade, profundidade e perspectiva atinge uma certa maturidade.
Segue-se o chamado estágio da decisão – crise da adolescência (14 aos 17 anos). Surge a consciência crítica do meio e do resultado representativo visando uma identificação mais clara do tipo visual, onde se formulam impressões do meio no qual o criador se sente espectador. Interpreta visualmente luz e sombra, dá ênfase à proporção exterior e à perspectiva espacial, a cor ganha aqui qualidade em relação ao ambiente. O criador sente-se agora envolvido por experiências subjectivas e expressões emocionais (tipo haptic ou não visual), onde a exibição de carácter e sentimentos surgem por vezes através de representações simbólicas. A cor surge expressiva com significado psicológico e emocional.
Referências Bibliográficas:
Lowenfeld, V. ; Brittain, W. (1970) Desenvolvimento da capacidade criadora. São Paulo: Mestre Jou
Luquet, C. H. (19699 - O desenho infantil. Porto. Ed. Do Minho.
Fases do do Desenho segundo Piaget, acedido em 1, Dezembro, 2010, http://www.scribd.com/doc28372295/

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